Tamanha é a responsabilidade, que não tem tamanho para ser responsável


Por onze anos trabalhei no braço social de uma grande empresa e tive o privilégio de não só ver nascer, mas também de participar, como executiva e ser humano, do movimento de Responsabilidade Social no Brasil. Vivi intensamente algumas ações e muitas discussões conceituais que deram origem ao que hoje está nos livros, nos estatutos e nas ações de importantes associações e organizações privadas com finalidade pública. E ainda pude contribuir disseminando meus aprendizados profissionais como professora universitária.

Uma transição de carreira me levou a deixar este universo, mas este universo jamais me deixou. Aliás, foi o momento de colocar em prova um discurso que eu tinha, principalmente na sala de aula e em visitas às comunidades, de que Responsabilidade Social não era pauta apenas para grandes corporações, mas para qualquer empresa ou indivíduo consciente e comprometido.

Nesta transição, quando há quase sete anos vim compor a sociedade do Instituto Planos, passei a viver a realidade de microempresa. Na microempresa, vi que praticar a Responsabilidade Social é uma questão de sobrevivência. Nós economizamos energia, água folhas de papel, gastos com viagens, etc., não somente pensando no meio ambiente, mas na economia que isso nos gera. Nós engajamos as pessoas, sejam colaboradores, fornecedores ou prestadores, primordialmente pelos  valores morais e menos  pelos pecuniários, ainda que os compromissos assumidos sejam rigorosamente cumpridos. Praticamos a governança pensando em dividir com a equipe o desafio que é empreender neste país. Buscamos a saúde financeira para honrar com nossos compromissos junto à equipe, aos que nos servem e ao governo. Em outras palavras, sem muito esforço, apenas sendo nós mesmos, extremamente sérios, éticos e bem intencionados, eu e meus sócios sempre fomos socialmente responsáveis.

Certa feita, fomos indicados para uma premiação de gestão onde fomos muito bem avaliados e ficamos entre os cinco primeiros colocados, perdendo justamente pelo quesito Responsabilidade Social. Investigando melhor, entendi que a expectativa dos organizadores estava pautada no conceito de investimento social privado, ou seja, nos faltava uma ação na comunidade. Todo o resto, nossas campanhas internas de conscientização, humanismo na missão, operações 100% formalizadas e impostos rigorosamente pagos (um diferencial no país da sonegação), sócios que só recebem por último (se sobrar dinheiro), nada disso foi considerado no meio de uma análise pautada em um equívoco conceitual.

Quando o resultado chegou, meus bons argumentos já tinham perdido o timing. Porém, no meio de uma certa frustração misturada com indignação, lembrei de um ditado que diz: “recebeu, doeu, toma pra ti que é teu”. Reconhecemos que de fato faltava um “algo mais”. Não só pelo prêmio, mas por todos nós que fazemos o IP. Realizar uma ação social sempre foi um desejo, apesar de até então não ter sido uma prioridade. E o destino nos presenteou com um sinal de que a hora tinha chegado.

Neste momento, vesti o papel de consultora interna e facilitei um processo de construção coletiva que resultou na primeira turma do Programa de Desenvolvimento de Jovens Talentos. Partimos da premissa de que nossa ação tinha que convergir com a missão do Instituto Planos, que era fundamental envolver todos os colaboradores sem exceção, que não teria formato de filantropia e deveria deixar uma contribuição efetiva para os beneficiários.

Em 2015, apesar da crise, o Programa de Desenvolvimento de Jovens Talentos nasceu com uma turma pequena, porém com a mais alta qualidade. Jovens universitários oriundos de cursos e faculdades variadas, que estudam com bolsas ou com o apoio de programas governamentais de financiamento, que não podiam pagar para ter acesso a congressos e seminários, foram contemplados com 10 módulos de gestão de 8 horas, com base na Tecnologia Empresarial Humanista.

Nossos “meninos e meninas” abdicaram de seus sábados de descanso e diversão para receber conhecimento. O mesmo conhecimento que levamos para líderes e colaboradores de empresas clientes. Conhecimento que não se perderá jamais. Conhecimento que já está se multiplicando.

Queria eu ter o dom da escrita para traduzir o que vivemos nestes dez meses. Emocionante e gratificante talvez sejam as palavras que vagamente mais se aproximam do que sentimos.

Na verdade, queria encontrar a auditora do prêmio para dar um abraço forte de agradecimento por ter me tirado da zona de conforto e por ter me aproximado de algo que faz parte da minha história e da minha essência, a ponto de ir além do IP e voltar a fazer trabalho voluntário. Da mesma forma, sei que o impacto também foi grande para nossa equipe e para nossos parceiros no Programa, a Gomes Martins Advogados & Consultores e o LPC Laboratórios e Vacinas.

Quem foram os beneficiados então, senão todos nós?

Hoje, nos preparando para lançar a segunda edição, mais robusta, eu falo com convicção de que é possível. É possível para qualquer cidadão e para qualquer empresário. Basta que tenha vontade e responsabilidade. E tamanha é a nossa responsabilidade que não importa o nosso tamanho.

E você, qual o tamanho da sua responsabilidade?